
Aos que tem se perguntado (e até me perguntado) sobre a ausência de textos que tratam da decisão extremamente errônea do STF de derrubar a exigência do diploma de jornalismo, esse texto serve para esclarecer algumas de minhas idéias, e também para abrir um debate, se assim os interessar.
Pra quem lê o blog e não sabe, sou estudante de Jornalismo do terceiro período da Unicap, em Recife. Estou infinitamente feliz com meu curso, e só me vejo fazendo outra coisa se fosse cinema, mas no momento a minha vontade é conciliar as duas carreiras, afinal de contas, jornalistas e cineastas geralmente gastam mais dinheiro do que ganham, hehe.
Quanto à decisão do excelentíssimo Gilmar Mendes, também conhecido como o amiguinho de Daniel Dantas, obviamente que discordo. Lógico que essa não foi uma decisão somente dele, é preciso lembrar que foram 8 votos contra 1, mas Gilmar, como presidente do Supremo, acaba sendo o mais visado. Além disso, foi este senhor quem deu a declaração belíssima que compara jornalistas a chefes de cozinha e costureiros (ou até mesmo estilistas, como o inteligentíssimo Gilmar só falou em corte e costura, ficou meio difícil entender o que ele realmente quis dizer).
Sim, meus caros, jornalismo é uma arte inexata. E por ser arte inexata, e ainda por cima se tratar da arte de escrever - coisa tão banalizada hoje em dia, principalmente graças a internet - é extremamente desvalorizada, até mesmo por aqueles que a exercem. Nessa última sexta-feira, houve uma passeata em Recife que reuniu jornalistas, estudantes de jornalismo, políticos, presidente da OAB-PE, enfim, cidadãos conscientes. Fiquei meio espantada por notar a falta de alunos da UFPE, mas depois ouvi algumas coisas que me fizeram entender (mas não concordar) a ausência deles. O caso é que muitos estudantes de jornalismo parecem concordar com a decisão do STF, o que me parece bastante contraditório. Corrijam-me se eu estiver errada, mas se uma pessoa acha que não é necessário um diploma para ser jornalista, o que ela está fazendo no curso de jornalismo? Quer especializar-se? Ok, existem livros e alguns cursos para isso, não perca seu tempo (e, em alguns casos, seu dinheiro) numa sala de aula! Vá fazer outro curso! Isso pode até complementar a sua carreira jornalística, além de que, você dá chance e espaço para outras pessoas mais interessadas!
Um dos argumentos (não sei ao certo de quem) foi de que a exigência do diploma é uma herança da ditadura. Ok, vamos acabar com tudo que veio da ditadura! Divórcio nunca mais! Sinto muito, mas como tudo nesse mundo, a ditadura também trouxe alguns benefícios para o país. Outro, se não me engano ainda seguindo a esteira da ditadura, é o de que a comunicação se tornaria mais democrática. Mais democrática pra que? Pra mais lixo jornalístico? Se o jornalismo brasileiro já é esse caos todo, tenho muito medo de onde vamos parar. E não me venha com papinho de abertura de mercado. O mercado já é aberto, sempre foi, sempre será. Porém, se começarem a surgir mais e mais jornalistas desqualificados ( o que já ocorre ), a vaca realmente vai pro brejo. Seria interessantíssimo assistir Ana Maria Braga ou João Kleber apresentando o Jornal Nacional. E sim, é pra dar exemplos radicais mesmo, porque muita gente ainda não se deu conta da gravidade da situação. Informação não é brincadeira. Escrever não é uma festa. Como já diria Ricardo Noblat, jornalista e professor de jornalismo: "Paris pode ser uma festa. Escrever não". Se a manipulação já ocorre atualmente, imagine então ser manipulado por pessoas que não têm a menor noção de ética jornalística, não saber se uma notícia é falsa, enfim, vai ser um deus nos acuda.
Outra coisa que eu queria esclarecer, não estamos tripudiando nenhuma profissão. O problema é que a maioria das pessoas tendem a rebaixar profissões que são tidas até hoje como banais. Como é que alguém consegue comparar culinária com jornalismo? Coisas completamente diferentes, acho que nem precisava dizer isso. Um chefe de cozinha precisa sim, estudar muito. Mesmo que ele não faça um curso superior de culinária, quantas receitas ele estudou, experimentou, inventou? Estudar não é só fazer cálculos, vamos por favor deixar esse pensamento ultrapassado para trás? Se cozinhar fosse fácil, eu já seria uma mestre cuca, e não uma criatura que demorou dias para saber fazer um frango gostoso. Escrever não é fácil. Plagiar pode ser, ler um autor, imitar seu estilo, trocar algumas palavras, isso é muito simples. Mas escrever é doar um pouco de si a cada linha, a cada palavra. Mesmo quando o texto é impessoal (ou ao menos deveria ser) como numa matéria, escrever é duro, é preciso cuidado, carinho, paixão, se não há amor pela coisa, logo há desistência. E eu adoraria, pelo amor que vocês têm a esse mundinho, que vocês criassem um pouquinho de consciência e parassem de pensar que jornalismo é fácil e qualquer um pode fazer. Não é. O poder de um jornalista é imenso, e me parece que vocês não tem noção disso. Ou se tem, estão esquecendo.
Foto: Panelada de Jornalismo, 26.06.09, Recife-PE
Sim, sou eu com essa cara de seiláoquê